Não são ação: ataques à imprensa são reação

Foto: Susann Mielke / Pixabay
Foto: Susann Mielke / Pixabay

Enquanto estas palavras são escritas, um dos jornalistas mais conceituados do Brasil chafurda publicamente no passado de Olavo de Carvalho. Certamente acredita estar fazendo o que o próprio ofício demanda. Afinal, o filósofo tem celebrado publicamente as duas nomeações que encaixou no ministério do governo Bolsonaro, é figura pública, merece algum escrutínio. Mas o tom com que o trabalho caminha levanta um incômodo odor de perseguição. Que, no contexto de um presidente eleito em uma campanha tomada por linchamentos virtuais, fica ainda mais questionável.

Gestada bem no início da década, a nova direita nacional veio ao mundo após os protestos de junho de 2013. Desde então, tem se radicalizado e causado justificados sustos em quem observa de fora. Em 2018, a curva se intensificou resultando na eleição de ninguém menos do que Jair Bolsonaro.

Sim, os métodos eram deploráveis. Deturpavam verdades, espalhavam mentiras, perseguiam desafetos e até mesmo aliados pouco empenhados. Mas, além da intensidade com que os ataques eram tocados, nada daquilo era inédito. No fundo, apenas usurpavam táticas historicamente encampadas pela esquerda. Em outras palavras, o rebote oferecia doses cavalares do mesmo veneno.

Também durante a campanha, a imprensa se deu a reclamar dos assassinatos de reputação promovidos nas redes sociais por perfis aplaudidos pelo presidenciável. Não seria injusto se ações tão nitidamente coordenadas se tornarem objeto de investigação. Mas os militantes assim agiam porque se sentiam no direito de uma revanche. Imaginavam fazer com a imprensa o que a própria imprensa costuma fazer com qualquer cidadão que surja como obstáculo a um discurso mais progressista.

A caça a Olavo soa mais um exemplo do conflito. Só no Facebook, o guru de Bolsonaro possui meio milhão de seguidores. Se por acaso decide contra-atacar, pode jogar contra o adversário uma turba violenta sobre quem nem mesmo o presidente eleito acredita ter controle. Colocadas desta forma, as palavras parecem culpar a vítima. Mas apenas sugerem que o próprio jornalismo dite o tom do debate. E ofereça a terceiros o respeito que reclama para si.

O Brasil não teria chegado a situação tão absurda sem uma sequência gigantesca de erros coletivos. Eles partiram dos mais variados personagens. Seria importante cada um revisar as próprias pegadas mirando os devidos ajustes de conduta. E isso inclui – principalmente? – a imprensa.

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