‘Matrix 4’ vira a chave de ‘1984’ para a de ‘Admirável Mundo Novo’

Reprodução/Warner Bros.

The Matrix Resurrections é um filme que desde o começo assume abertamente a pergunta: por que fazer um novo Matrix?

O resto do filme é o desenvolvimento da tese: “Neste filme, mostraremos porque é necessário fazer um novo Matrix”.

E é necessário fazer um novo Matrix hoje porque o mundo de hoje é mais parecido com o de Admirável Mundo Novo do que o de 1984.

I.

Vamos lembrar da primeira trilogia Matrix. No futuro distante, a humanidade perde uma guerra contra as Máquinas. Quase todas as pessoas vivem fisicamente capturada em ‘pods’, entubadas e a serviço das Máquinas, mas em suas mentes estão habitando uma realidade virtual muito parecida com a de 1999. Nesse mundo virtual ainda é possível ver o Sol, enquanto o mundo real vive uma noite eterna.

Algumas poucas pessoas são libertas da Matrix. Elas saíram da caverna de Platão e vivem em Zion, a comunidade dos ‘redpillados’ e até de alguns nativos, pessoas que nasceram fora da Matrix e por isso não tem o plugue na nuca e outras marcas no corpo.

A libertação da Matrix é uma libertação de agência e de propósito, mas não do poder. Zion é talvez mais hierárquica e mais desigual que a Matrix. É uma sociedade cercada por inimigos e altamente militarizada. As naves têm seus capitães, e um conselho de anciões toma as decisões. A cidade tem ‘rave’ na caverna, é verdade, mas de resto há respeito e reverência, ordem e disciplina. É interessante que a metáfora do ‘redpillado’ atraia tanta gente da direita na internet, pois tomar a pílula vermelha é entrar em outro mundo, sim, mas de disciplina e hierarquia.

O objetivo de Morpheus ao descobrir Neo é achar um super-agente, capaz de libertar muito mais gente da Matrix muito mais rápido e com isso vencer a guerra contra as Máquinas. Em Matrix Reloaded, Morpheus celebra isso explicitamente (“Consider that in the past 6 months we have freed more minds than in 6 years”).

Libertar-se da Matrix é ser convocado para uma guerra.

II.

Desde os tempos mais primórdios da internet (na verdade, 2009) circula um quadrinho de Stuart McMillen comparando os livros 1984 e Admirável Mundo Novo. Leia.

Reprodução/Stuart McMillen

A trilogia Matrix original se parece mais com 1984. A Matrix não tem nada demais: foi feita para se parecer com a aborrecida realidade de 1999. Mais especificamente, a aborrecidade realidade de um homem heterossexual branco em país desenvolvido com um ‘white-collar job’ (notem que no filme Matrix nunca é dito em qual cidade Thomas Anderson vive. Adendo: vários filmes da mesma época exploraram o mesmo tipo de vazio existencial dos anos Clinton, quando a União Soviética estava acabada e a Guerra ao Terror não tinha começado; no mesmo 1999 foi lançado Clube da Luta).

Mas o mundo real em Matrix é frio, opressor, cheio de escassez e dominado por um inimigo impessoal, paranoico e sedento de poder. As Máquinas são uma espécie de ‘Grande Irmão’.

Acontece que o mundo real, nos últimos 20 anos, caminhou muito mais para Admirável Mundo Novo do que 1984.

O que a internet e depois dela a internet de bolso fizeram foi viciar as pessoas, inclusive de propósito, como já está fartamente documentado com experimentos como os do Facebook dar mais valor para as reações de raiva do que as outras etc. etc. e outras coisas que a gente poderia ficar a semana inteira falando.

Mais para o final de Matrix 4 isso é dito quase explicitamente. O Analista, que é muito mais perverso do que o Arquiteto, diz que é muito mais fácil mudar sentimentos do que fatos. É óbvio que ele está falando de redes sociais. Mas as redes não aparecem no filme, porque ‘o povão’ não tem muito lugar nos filmes Matrix, exceto talvez aquele colega de Thomas Anderson no café Simulatte e os ‘NPCs’ que vivem se repetindo na empresa.

As Máquinas, que eram distantes e estranhas na trilogia original, estão agora voluntariamente no nosso bolso. Elas sabem o que a gente come, com quem conversamos, o que ‘curtimos’, para onde vamos, a que assistimos, a que horas chegamos em casa, etc. O teste de Turing foi invertido: somos nós, a cada poucos cliques, que temos que provar que somos humanos, selecionando 3 imagens de barcos que nunca vi porque sou de Belo Horizonte, que não tem praia.

E as pessoas se orgulham do vício, “vem de Zap”, “eu sou robô do Bolsonaro”, “segue de volta”, etc. Querem colecionar curtidas, seguidores; aprenderam o que é “FOMO”, o que é “YOLO”, etc. etc. Isso é muito mais parecido com o mundo do Huxley, a garotada viciada em Soma e se orgulhando de suas identidades e programações pré-definidas, do que o bravo casalzinho Winston e Julia enfrentando uma metáfora da União Soviética.

III.

Uma das muitas soluções encontradas por Lana Wachowski e os outros dois roteiristas para mostrar por que é necessário fazer um novo Matrix foi enfrentar explicitamente o que é Matrix dentro da Matrix. Dentro da Matrix, os eventos de Matrix foram gamificados. Thomas Anderson escreveu em código as memórias dele mesmo. As pessoas na Matrix agora conhecem Matrix, mas acham que é apenas um jogo.

É uma solução semelhante a uma das sacadas de Men in Black. O Agente K (Tommy Lee Jones) se informa pelos tabloides sensacionalistas, esses com manchetes do tipo ‘engravidei de um alien’, etc. A melhor forma de esconder um segredo não é ocultá-lo: é contar para todo mundo, desde que pareça absurdo e ridículo. Alguns assessores de imprensa e ‘spin doctors’ no mundo real dominam esse truque com grande habilidade.

The Matrix Resurrections fala ao mundo de 2021 porque em 2021 a mensagem do Matrix original foi gamificada, redditada. Porque as Máquinas, em vez de ‘otherizadas’, foram voluntariamente acolhidas como nossas novas chefes. Porque na terapia e outras religiões nós tomamos a pílula azul voluntariamente todos os dias. Porque Zion ficou ultrapassada e surgiu Io, que aceitou e/ou aprendeu a viver com a inteligência artificial.

Ao se atualizar, Matrix mostrou que tinha acertado desde o princípio: se a realidade de 1999 era mais simples, será ainda mais fácil manter as pessoas voluntariamente prisioneiras no mundo pós-Facebook.

Para o Início