Em 2005, Jair Bolsonaro prometeu interceder por assassino que se tornaria chefe de milícia

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Trata-se do mesmo miliciano que chefiava o crime organizado na favela onde atuavam os suspeitos da morte de Marielle Franco

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Adriano Magalhães da Nóbrega comandava o Grupamento de Ações Táticas que era conhecido como “Guarnição do Mal” nas favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo a acusação, e conforme relembrou O Globo, o então tenente da PM, juntamente com outros oito policiais, sequestrou, torturou e extorquiu Wilton Arjona da Silva em 28 de outubro de 2003. Uma semana depois, ainda sem o caso se tornar público, o deputado estadual Flávio Bolsonaro usou a ALERJ para homenagear o grupo com “moções de louvor”.

Passada mais uma semana, os membros do GAT repetiram o crime, desta vez com Anderson Luiz Moura como vítima. Dez dias depois, em 21 de novembro de 2003, foi a vez de Leandro dos Santos Silva, de 24 anos, passar pelo sequestro e tortura.

Somente após três dias, Leandro prestou queixa à corregedoria interna da Polícia Militar. Às 6h30 da manhã seguinte, foi assassinado na porta de casa com três tiros.

Os acusados foram condenados quase dois anos depois, em 24 de outubro de 2005. Em 27 de outubro, Jair Bolsonaro usou os microfones da Câmara Federal para defender o comandante da Guarnição do Mal, tratado por ele como “um brilhante oficial”. No discurso, o registro de que o deputado federal acompanhara o julgamento in loco, e prometia atuar para reparar o que entendia ser uma injustiça.

Na segunda-feira passada, pela primeira vez compareci a um tribunal do júri. Estava sendo julgado um tenente da Polícia Militar de nome Adriano.

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No entendimento de Bolsonaro, os assassinos só foram condenados porque o Coronel Menick depôs contra, o que constrangia as testemunhas de defesa, uma vez que a de acusação seria aliada do governo do Rio de Janeiro.

Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado, ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente, acusando-o de tudo que foi possível, esquecendo-se até do fato de ele sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar. (…) Então, Sr. Presidente, não sei como podemos colaborar. O advogado vai recorrer da sentença, mas os outros coronéis mais modernos não podem depor, senão vão para a geladeira, vão ser perseguidos. E o tenente, coitado, um jovem de vinte e poucos anos, foi condenado.

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Ao fim, falando na primeira pessoa do plural, o deputado federal disse querer se “assessorar” com Denise Frossard, magistrada que cumpria um único mandato como parlamentar pelo mesmo Rio de Janeiro.

Quero me assessorar com a Deputada Juíza Denise Frossard e com outros juízes para saber como podemos proceder no futuro. Se um coronel vai depor e outro não pode fazê-lo porque será perseguido, o depoimento dessa autoridade tem de ser desqualificado

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O júri que condenou os policiais da Guarnição do Mal findaria anulado, com absolvição para todos os condenados em primeira instância. Em 2019, já como ex-capitão da PM, Adriano da Nóbrega foi apontado pelo Ministério Público como chefe do Escritório do Crime, milícia que aterroriza a favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e estaria envolvida no assassinato de Marielle Franco. Até a redação deste texto, seguia foragido.

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