Como provar que o nazismo era de direita

Foto: Autor desconhecido.

É claro que o nazismo é de direita, de extrema-direita. Mas demonstrar essa verdade histórica não é tão simples quanto parece.

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A soma do quadrado dos catetos equivale ao quadrado da hipotenusa. Mesmo sendo uma verdade matemática, é comum que os professores busquem demonstrar aos alunos como os estudiosos chegaram à fórmula. É uma maneira de provar que há uma lógica guiando as ciências exatas. O mesmo não costuma ocorrer, contudo, nas humanas.

Talvez por não enxergar relevância na questão, a academia não se esforça para demonstrar o que fez o nazismo ser um movimento político de extrema-direita. A negligência liberou um gigantesco flanco para que uma direita mais oportunista oferecesse um revisionismo histórico que não só limpa a barra do grupo, como larga no colo do adversário o pior erro da humanidade.

Mas, ao contrário do que prega Olavo de Carvalho e os alunos que integram o governo Bolsonaro, o nazismo é mesmo um movimento político de extrema-direita. Demonstrar isso, no entanto, não é tão simples quanto parece. E requer alguns longos passos.

Compreendendo a diferença entre direita e esquerda

As denominações “direita” e “esquerda” vêm da Revolução Francesa. Na Assembleia Nacional, os apoiadores do rei se sentavam à direita, os da revolução, à esquerda. Mas é preciso ir mais fundo e compreender o que estava em jogo na França do século XVIII.

A Revolução Francesa foi uma das várias revoluções burguesas ocorridas no Ocidente. A revolução burguesa britânica, por exemplo, ocorreu no século anterior. A brasileira, no seguinte.

As revoluções burguesas serviam para dar fim a um modelo em que apenas famílias nobres, por intermédio de uma monarquia absoluta, comandavam a nação. Desta forma, abriam espaço para uma sociedade mais livre, onde o Mercado tinha muito mais força para interferir nas grandes decisões.

É possível afirmar que as revoluções burguesas foram o caminho percorrido para que as nações ocidentais se tornassem capitalistas. Mas ainda é cedo para concluir que a direita seria uma defensora da idade moderna, e a esquerda, da contemporânea. Pois isso faria da esquerda uma defensora do capitalismo. E isso a esquerda definitivamente não é, forçando um mergulho ainda mais profundo na lógica do período.

Compreendendo o iluminismo

A contemporaneidade tem por gatilho o Iluminismo, um movimento cultural que passou a questionar a forma como a sociedade resolvia os próprios conflitos. Novos caminhos passaram a ser testados. Se fossem melhores, viravam regra.

Em outras palavras, a sociedade deixou de se guiar pela tradição, pelo dogma e pela fé para se guiar pela razão, pelo método científico e, simbolicamente, pela luz.

É mais ou menos como o Mercado se guia: dá certo? Dá lucro? Recebe prêmios. Não dá certo? Não dá lucro? É abandonado.

O que permite uma volta às revoluções burguesas: foram o caminho percorrido pelo Ocidente para oficializar o modelo científico como método a guiar a sociedade.

É possível, então, assumir que a esquerda seria a força a defender o Iluminismo. Afinal, o conservadorismo nasce em resposta a exageros do Iluminismo. E a direita é conservadora.

Em outras palavras, para o bem ou para o mal, a esquerda defende que a sociedade tome decisões com base no método científico. A direita, com base na fé em Deus ou mesmo nas relações familiares da nobreza, defende as formas tradicionais de se resolver conflitos.

Era isso o que estava em jogo na Revolução Francesa e em tantas revoluções burguesas.

Compreendendo a diferença entre capitalismo e socialismo

Ainda sem essa denominação, o Capitalismo permitiu à humanidade evoluir como nunca. Mas uns poucos evoluíam bem mais do que todo o resto. Afinal, se apenas uma pequena parcela da sociedade tinha acesso ao conhecimento, apenas essa pequena parcela teria algo inovador a oferecer. E os prêmios distribuídos pelo sistema se concentraram num grupo minúsculo – de certa forma, a mesma nobreza da era anterior.

Algo positivo a se dizer da esquerda: ela não costuma se conformar com problema sem solução, ainda que tente resolvê-lo imprudentemente. Assim começou a discutir maneiras de se regular as liberdades capitalistas no intuito de que uma maior fatia da sociedade desfrutasse dos mesmos avanços da elite.

A mera intenção de fazer o sistema focar-se na sociedade seria futuramente denominada de socialismo, um modelo que não priorizaria o acúmulo de riquezas aos poucos indivíduos que detinham conhecimento, mas aos membros da sociedade como um todo. Dessa intenção, nascia também o conflito entre individualismo e coletivismo.

A esquerda é uma investidora de risco. Adora testar novos caminhos, independente do estrago que podem ocasionar. A direita, até por ter mais a perder, é conservadora, faz apenas as apostas mais seguras, mas o ideal seria nem mesmo apostar.

Quando morreu Henri de Saint Simon, criador do termo “socialismo”, Karl Marx era uma criança com apenas 7 anos de idade. É importante ter esta noção para compreender que o socialismo é anterior a Marx.

Havia o desafio: como fazer ajustes no capitalismo de forma a torná-lo mais inclusivo? Marx entrou na discussão quase um século atrasado. E entregou uma receita autoritária, que dava validade moral à truculência, ao autoritarismo, à ditadura.

Era uma época em que democracias engatinhavam e soavam insatisfatórias à imensa maioria. Por isso, o marxismo serviu de norte moral mesmo à parte mais estudada da elite. E encontrou na “classe trabalhadora” um exército a ser arregimentado.

Hoje, o que se critica como socialismo é, na verdade, o marxismo em si, com todos os vícios que findariam em dezenas de milhões de mortes no século XX. E é uma pena que haja esse tipo de confusão, pois de fato objetivo inicial era nobre – mas de boas intenções o inferno está cheio.

Compreendendo as motivações da Primeira Guerra Mundial

O capitalismo era tão concentrador de poder que o mundo terminaria o século XIX dividido em um punhado de gigantescos impérios. O britânico era tão grande que o sol sempre iluminava alguns de seus territórios. Junto com o francês, dominavam Atlântico e Índico.

Os Estados Unidos nunca se denominaram império, mas agiam como um que dominava toda a América Latina com a Doutrina Monroe, e grande parte do Pacífico.

O problema veio das unificações itálica e germânica, que puseram mais duas potências no mundo. E de repente havia cacique demais para uma única aldeia global. Quando isso acontece, a Europa, com auxílio dos americanos, entra em guerra.

Essa, em especial, foi postergada ao máximo. Quando finalmente deflagrada, imaginou-se que duraria um trimestre. Mas a demora para o início da “disputa” permitiu uma longa corrida armamentista. E o conflito não teria fim enquanto houvesse munição.

Três anos depois, com o continente já destruído, as nações estavam fragilizadas e suscetíveis à ascensão de basicamente qualquer força. Era a chance que o marxismo precisava para se impor. E a assim o fez na Rússia em 1917, dando vez à União Soviética cinco anos depois.

Compreendendo as origens do nazismo

O drama russo estimulou revoltas socialistas na Alemanha. Temendo destino semelhante, a elite local achou por bem abrir mão da Primeira Grande Guerra, assinando qualquer rendição, por mais humilhante que fosse, e por mais que abalasse a opinião pública.

Mas a ideia de que o capitalismo era nocivo estava por demais forte. Afinal, o modelo levara à destruição do continente. Era preciso estabelecer limites. O socialismo, como se lia sobre a Rússia, seria a desgraça do Mercado. Havia, no entanto, um meio termo.

A social-democracia funcionava como um marxismo reformado. Pretendia estabelecer limites ao capitalismo, mas sempre respeitando o jogo democrático. A dinâmica naturalmente lenta do sistema permitiria que o Mercado se adaptasse. E a Alemanha imaginava, assim, um dia encontrar a paz.

Era uma solução moderada, que buscava entender anseios capitalistas e socialistas. Mas o país, que já estava destruído, humilhou-se por completo assinando o Tratado de Versalhes. E os radicais sempre exploram falhas do tipo para ascenderem.

No ano anterior, em março de 1918, formou-se em Munique o Comitê de Trabalhadores Independentes. Por mais que nascesse da classe trabalhadora, vinha da mente de Anton Drexler, um nacionalista que se mostraria contrário não só ao armistício assinado pela Alemanha, como às revoltas socialistas que tomavam o país.

Drexler era basicamente “contra tudo isso que está aí”: o capitalismo, o marxismo e a monarquia. Na prática, só acreditava na Alemanha como nação soberana, e no povo alemão como uma raça superior.

As reuniões do comitê discutiam uma nova forma de socialismo. Um socialismo diferente do marxista, um que resgatasse a Alemanha como nação, que não fosse internacionalista como o russo, mas nacionalista. Um socialismo nacional, alemão…

Nascia o nacional-socialismo. Que a história abreviaria como “nazismo”.

Compreendendo como o nazismo se articulou

Cabe ressaltar alguns pontos:

  • Nos discursos, Adolf Hitler não usava a expressão “nazismo”, mas “nacional-socialismo”.
  • Adolf Hitler não criticava o “socialismo”, mas o “marxismo”.

Contudo, o interesse no socialismo anterior a Marx não faz do nazismo um movimento de esquerda. Porque não foi pela esquerda que o nazismo chegou ao poder.

A social-democracia era, na prática, o reconhecimento de que havia algum valor nobre no marxismo. Mas, em decorrência do próprio radicalismo, o marxismo não aceitava qualquer via além da autoritária. E entendeu os sociais-democratas não como aliados, mas como obstáculos que o impediam de atingir o objetivo final, a “ditadura do proletariado”.

Se até a social-democracia era atacada pelo marxismo, como o nazismo, que renegava Marx, teria alguma articulação com socialistas? Pois é… Não teria. Desta forma, o nacional-socialismo seguiu atuando com um grupo político anti-establishment, salivando por uma grande crise para chegar ao poder.

A próxima grande crise veio com a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Nos Estados Unidos, o capitalismo decepcionava. Na Alemanha, a culpa recaía sobre a social-democracia, que fracassava entre os extremos radicais.

Os mais radicais – nazistas (nacionais-socialistas) e comunistas (internacionais-socialistas) – tentaram tirar proveito da Grande Depressão. Como método, valia o “quanto pior, melhor”. Assim, forjavam todo tipo de “false flag” em benefício próprio ou em prejuízo ao inimigo.

A Alemanha foi ficando ingovernável. O partido nazista ganhava espaço no parlamento, até que se tornou o maior em novembro de 1932, com 37% das cadeiras. Mas 37% dos votos não faziam de Hitler um presidente. Naquele ano, Paul von Hindenburg elegeu-se com 53% de maioria.

Contudo, não havia como governar sem Congresso. Contrariado e alheio à polarização, Hindenburg cedeu à pressão. Entregou três postos chaves aos nazistas: o Ministério do Interior da Alemanha, o Ministério do Interior da Prússia e a chancelaria – que ficou aos cuidados de Hitler.

Mas ainda não havia maioria parlamentar. Em março de 1933, convocaram novas eleições legislativas. Os nazistas saíram das urnas com 44% dos assentos. Faltava pouco. Quem emprestou cadeiras para Hitler obter maioria? O Partido Popular Nacional Alemão, conhecido como DNVP.

O DNVP não era comunista, nem social-democrata. O DNVP nasceu conservador, portanto, de direita. E se radicalizou até fazer este favor aos nazistas, e um desfavor à humanidade.

O nazismo pode ter partido do mesmo ponto de onde partiu o socialismo. Pode ter mirado ou distorcido alguns valores identificados como de esquerda. Pode ter renegado o capitalismo e lutado contra o establishment. Mas só encontrou apoio para chegar ao poder absoluto no conservadorismo radical da direita.

Ainda em 1933, o DNVP seria dissolvido, pois os nazistas atuaram para que a Alemanha tivesse um único partido, o do líder máximo.

Apesar de toda a polêmica, Hitler só deixou de ser venerado por boa parte do planeta quando, em 1941, a Operação Barbarossa se confirmou um fracasso retumbante, permitindo um contra-ataque da União Soviética junto com Estados Unidos e Reino Unido. Para sorte da humanidade, fascistas, nazistas e japoneses foram derrotados.

Os horrores do holocausto só se tornaram públicos em 1945, com a rendição alemã. Em inglês, a Wikipedia traz uma lista com mais de 40 marcas que direta ou indiretamente colaboraram com a tragédia. A tabela serve de amostra de como o Mercado se comportou durante o pior momento da história.

Parte dos acontecimentos aqui narrados estão registrados em dois documentários disponíveis na Netflix: “Hitler, Uma Carreira“, de Joachim Fest e Christian Herrendoerfer, e “World War II in Colour“, escrito por Jonathan Martin.

Lendo o próprio Hitler

Em 1923, em entrevista ao Guardian, Adolf Hitler em pessoa precisou responder à questão: “Por que vocês se chamam Nacional Socialista, já que seu programa partidário é a antítese do que comumente conhecemos como socialismo?” A resposta confirma o que foi explicado há pouco.

“Socialismo é a ciência de lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu irei tomar o socialismo dos socialistas. Socialismo é uma instituição anciã ariana e germânica. Nossos ancestrais alemães mantinham certas terras em comum. Eles cultivavam a ideia do bem-estar comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferente do Marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e, diferente do marxismo, ele é patriótico. Nós poderíamos ter nos chamado Partido Liberal. Nós escolhemos nos chamar de nacionais-socialistas. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Nós demandamos o cumprimentos das justas reivindicações das classe produtivas, pelo Estado, na base da solidariedade de raça. Para nós, Estado e raça são um.”

‘No room for the alien, no use for the wastrel’q

De acordo com o próprio Hitler, o “nacional-socialismo” valorizava a propriedade privada, o indivíduo, a pátria, o nacionalismo e buscava resgatar uma tradição perdida pela ação dos marxistas. Não é difícil compreender que o líder nazista forjava um socialismo “de direita”, que dividia com o de esquerda o louvor à classe trabalhadora e à salvação via Estado.

Mas estes dois últimos traços nem estão de todo descolados da alt right do terceiro milênio. Basta conferir como Donald Trump foca o discurso em empregos à classe trabalhadora dos Estados Unidos, ou como Jair Bolsonaro atua para sabotar as reformas liberais do próprio governo.

Conferindo o discurso de Hitler

Em 23 de março de 1933, Hitler discursou para o parlamento alemão, que por ampla maioria conferiu-lhe poderes ditatoriais. Acabava a democracia na Alemanha, nascia uma ditadura totalitária.

Mais baixo, alguns trechos do discurso jogam luz em discussão tão obscura.

“A divisão de nação em grupos com opiniões inconciliáveis, provocada sistematicamente pelas doutrinas falsas do marxismo, significa a destruição da base de uma possível vida em comunidade.”

“Quando uma determinada imprensa tenta, de acordo com o princípio de levantar inverdades políticas através do comunismo, identificar este ato vergonhoso com o levantar nacional, então eu só tenho meus atos confirmados em não deixar nada passar para que este crime seja reparado.”

“O respeito diante dos grandes homens deve ser ensinado novamente aos jovens como herança sagrada. À medida em que o governo está decidido a proceder com a desintoxicação política e moral de nossa vida pública, assegura as condições para uma verdadeira e profunda vida religiosa.”

“As vantagens de natureza política e pessoal que queiram resultar de compromissos com organizações ateístas não valem a pena frente à visível destruição dos valores morais fundamentais.”

O governo nacional considera as duas religiões cristãs como os mais ponderáveis fatores para a manutenção de nossa nacionalidade.”

“A preocupação do governo vale na correta coexistência entre igreja e Estado; a luta contra uma cosmovisão materialista, em prol de uma verdadeira comunidade do povo serve tanto para os interesses da nação quanto ao bem-estar de nossa fé cristã.”

Os fundamentos da existência da Justiça não podem ser outros senão os fundamentos da existência da nação. Portanto, queira isto ser sempre a linha-mestra daqueles que, sobre os duros caminhos da realidade, são responsáveis pela vida nacional.”

O governo não protegerá os interesses econômicos do povo pelo método tortuoso de uma burocracia econômica a ser organizada pelo Estado, mas pelo máximo fomento da iniciativa particular e pelo reconhecimento dos direitos de propriedade.”

“O problema de nossas finanças públicas se resume, ao final, no problema de uma administração austera. (…) Deve haver uma diminuição dos tributos através da simplificação da administração.”

A salvação do agricultor local deve ser conseguida a qualquer preço. A destruição desta classe em nosso povo levará às conseqüências mais graves.”

Sem o contrapeso dos agricultores nacionais, a loucura comunista já teria assolado o país e com isso destruído definitivamente a economia local.”

Semelhante ao agricultor local, é a posição do governo nacional em relação à classe média.”

“O governo nacional educará o povo neste espírito de desejo de liberdade. A honra nacional, a honra do nosso exército e o ideal de liberdade devem mais uma vez ser sagrados ao povo.”

“O governo local, que considera o cristianismo como fundamento inabalável da moral e do código de moral da nação, empresta o maior valor às relações de amizade com a Santa Sé, e esforça-se por desenvolvê-las.”

A luta contra o comunismo é nosso assunto interno no qual jamais permitiremos a interferência do exterior.”

Discurso de Adolf Hitler de 23 de março de 1933

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