Governo dos EUA se arrependeu de apoiar ditadura após AI-5

Telegrama enviado para a embaixada dos EUA mostra que AI-5 era mau sinal. Foto: Pixabay

Telegrama enviado para a embaixada dos EUA mostra que AI-5 era mau sinal.

Foto: Pixabay

UM TELEGRAMA DO DEPARTAMENTO de Estado emitido no Natal de 1968 mostra que o governo americano se arrependeu da aproximação com o ditador Castello Branco (1964-1967), o primeiro presidente da ditadura militar. O texto foi redigido 12 dias depois do AI-5, outorgado já no governo de seu sucessor, Costa e Silva (1967-1969).

“Em retrospecto, acreditamos ter errado depois do Ato de outubro de ’65 [AI-2] em não recuar de nossa aproximação próxima e identificação pública com o Governo Castello”, diz o telegrama, redigido por Jack B. Kubisch no Departamento em Washington e enviado para a Embaixada dos EUA, então chefiada por Lincoln Gordon.

O texto é profundamente crítico ao AI-5. “Por quaisquer padrões que se espere aplicar, o desenvolvimento político sofreu um forte golpe, e os direitos humanos, como definidos por padrões internacionais mínimos, já sofrem em alguma extensão e permanecem sob séria ameaça. Não há como discutir a arbitrariedade do AI-5 e os poderes que ele dá a Costa e Silva. Nos parece que ele pode fazer quase qualquer coisa que quiser a quase qualquer pessoa no país, com apenas um punhado de homens tendo o poder de fazer algo a respeito”.

O telegrama também destaca que Atos Institucionais anteriores tinham prazos de validade, ao contrário do AI-5.

O governo dos EUA estava “cautelosamente otimista” sobre o governo Castello Branco. Esse é o termo usado em memorando redigido em 22 de abril de 1964 e enviado ao diretor da CIA, John A. McCone. “A revolução de abril derrubou um regime com tendências perigosas do ponto de vista de interesses dos EUA [Goulart] e aparentemente incapaz de ação útil para lidar com os problemas cada vez mais críticos do Brasil”.

O texto informa que mais de 200 pessoas, incluindo políticos e militares, tiveram alguns de seus direitos políticos cassados por 10 anos, incluindo o ex-presidente Jânio Quadros e Celso Furtado, ex-superintendente da Sudene. E antecipa que o maior perigo para o governo Castello seria a disputa interna entre os militares, incluindo por parte do ministro da Guerra, Costa e Silva.

Mas a CIA nem sempre acerta. No parágrafo 9 do memorando, está escrito que “estimamos que o regime interino provavelmente vai sobreviver e realizar eleições livres em outubro do ano que vem [1965]”. Foram otimistas demais.

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