Ricardo Boechat (1952-2019)

Ricardo Boechat: professor de Jornalismo. Foto: Divulgação/Band

Ricardo Boechat: professor de Jornalismo.

Foto: Divulgação/Band

RICARDO BOECHAT ERA o profissional mais adequado para dar a notícia de sua própria morte. Ocorreu em um incidente horrível, a queda de um helicóptero e sua colisão com um caminhão na Rodovia Anhanguera, em São Paulo, no começo da tarde desta segunda-feira (11).

Âncora do Jornal da Band, caberia a ele noticiar, poucas horas depois, o incidente que matou ele próprio e o piloto Ronaldo Quattrucci.

Ricardo Eugênio Boechat foi eleito duas vezes o jornalista ‘Mais admirado do Brasil’ pelos colegas de profissão, em pesquisas promovida pela newsletter Jornalistas&Cia e pelo Portal dos Jornalistas em 2014 e 2015. Era um dos poucos lido, ouvido e assistido tanto pela esquerda quanto pela direita. Com seu trabalho, mostrou ser perfeitamente possível dar opinião e manter a credibilidade do que noticiava.

Filho do diplomata brasileiro Dalton e da portenha dona Mercedes, era um locutor eloquente e conseguia fazer formidáveis comentários ao vivo. Tinha também o dom de não se levar muito a sério. Já compareceu ao balcão do telejornal com peruca, deixou um robô de sucata em seu lugar e topou o convite de Danilo Gentili para ler no teleprompter a notícia do Apocalipse.

Aos 14 anos de idade, em 1966, Boechat se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Abandonou a escola antes de completar o 2º grau (hoje “ensino médio”). Seu pai foi preso várias vezes durante a ditadura. Na adolescência, não curtia muito as drogas; contou à Rolling Stone que seu vício era o comunismo. Era também grande fã dos Beatles, Roberto Carlos e Jethro Tull.

Começou a carreira aos 17 anos, no Diário de Notícias. Em 2001, foi demitido de O Globo após gravações mostrarem uma conversa dele com Paulo Marinho, principal assessor do famigerado empresário baiano Nelson Tanure, que acabara de comprar o Jornal do Brasil. Não houve qualquer menção sobre um favor ou compensação, mas Boechat leu a Marinho uma reportagem, que seria publicada no dia seguinte, sobre manobras do banco Opportunity, de Daniel Dantas. A prática é normal e pode ser usada para apurar uma notícia – quando o repórter quer verificar com a fonte o que descreve no texto. A reportagem acabou sendo usada como peça na ação judicial dos fundos de pensão contra o Opportunity. Tanure, naturalmente, também tinha outras ambições com sua aquisição de um veículo de imprensa, e Roberto Marinho já havia quase demitido Boechat em ao menos duas ocasiões. Aquela foi uma nova oportunidade. O fundador da TV Globo morreu em 2003.

Certa vez, em 2014, Boechat ficou alguns dias sem aparecer na Band. Correu o boato de que era porque ele estava negociando com a Record. Em 2015, desmentiu tudo à Rolling Stone: “não trabalhei na Band porque fiz uma cirurgia de hemorroidas (…) eu fui afastado por causa da minha bunda”.

Horas antes do acidente, Ricardo Boechat usou o microfone do Café com Jornal para comentar a recente sucessão de eventos. “Também ele [Flamengo] precisa sentar no banco dos réus”, disse, sobre o incêndio no Ninho do Urubu que matou 10 meninos. “Tá cheio de gente marcando pênalti e pouco juiz aplicando a punição a máxima”.

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